Alguma memória

Aqui vão alguns registros de memória do sertão que há dentro de mim.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Artista é na rua


Conheci Patativa do Assaré numa segunda-feira da minha infância. Foi no cruzamento das ruas Santos Dumont com Monsenhor Esmeraldo, no Centro do Crato. Patativa estava na cidade 'resolvendo assuntos na feira'. Eu ia com meu pai não sei mais para aonde.

Praticamente trombamos naquela esquina, na qual ocorreu o seguinte diálogo: "Olha ai o poeta!", disse meu pai. Ôpa!, respondeu Patativa. E completou: "Esse menino é seu?". A mãe dele garante que é, brincou papai. "Qual é o nome dele?". 'Henrique'. E o poeta: "Henrique é nome difícil de dizer, mas quem não quer Henrique ser?". E seguiu com sua aura de prata no meio da feira. Ave Patativa!
Essa singela passagem da minha vida serve hoje para  homenagear a todos os artistas que tive o prazer de conhecer na rua, não nos palcos, na tevê ou nos jornais. Salve Aniceto! Salve Seleiro! Pedro Bandeira! Chiquim Eugênio (reisado).... Salve, Salve!
A foto acima é um detalhe do Centro Mestre Noza de Artesanato, em Juazeiro. Um lugar incrível, que merece ser visitado e valorizado. Nos braços de São Francisco tenho quase certeza de que os passarinhos são Patativa e Elói Teles de Morais, dois gigantes da cultura popular.

sábado, 7 de maio de 2011

Doces bárbaros

Seu Lunga ganhou fama de bruto e essa fama ganhou o mundo. Quero dizer aqui uma coisa: Lunga na frente de outras “peças” que pontificaram no Cariri é um cordeiro. Bill (assim como todo Francisco é Chico, Severino é Bill no sertão), Pão Doce e Zé Lopes estão no alto do panteão da ignorância  cratense (dizem alguns que meu pai também é meio brutinho mas, como convivemos desde sempre, me acostumei e acho tudo muito natural). 

Pão Doce foi colega de Tiro de Guerra de Meu Pai. Esquelético. Não, um “mané-mago”. Um dia, o sargento que dava a instrução física, castigou a turma com incontáveis voltas correndo em torno do campo de futebol. Depois, passou um sabão. Chamou-os de frouxos e outros adjetivos menos nobres. Por fim, desafiou: “Sou um homem maduro, que serviu na caserna! Agora, apareça um de vocês pra fazer exercícios comigo!”

A turma inteira ficou paralisada. Pão Doce, que mal respirava após o castigo imposto à turma, deu passo à frente e disse: “Proto, sargento”. A turma entendeu a senha e cercou o militar, que sacou da arma e ordenou “última forma!” Todos dispersaram. E o sargento escapou de uma sova.


Zé Lopes era comerciante de gado em pé. Comprava rezes e as vendia para o abate. Reza a lenda que um dia de setembro, numa das estradas vicinais que corta a Chapada do Araripe, ele foi visto puxando uma rês para dentro de um fusca. Isso mesmo, um novilho, pequeno é verdade, devidamente laçado numa corda caroá, era puxado para entrar no fusca, que estava sem o banco do passageiro para aumentar o espaço.

Alguém que passava gritou: “Cabe não, seu Zé!” E ele: “Esse fdp, entra! O 
outro não entrou?” 
                                                                                                              
Vixe, ia esquecendo de seu Bill, que é do pior tipo de bruto que há: o dócil, educado até. Pode-se se dizer dele que... “homi rá se lascá!”

PS. Esse é o meu panteão. Há outros, muitos outros!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O encantamento da pedra

Faz pouco tempo publiquei no Facebook a série de textos “Saudades do Cariri”. São textos despretenciosos, surgidos numa horinha de ócio. Acredito que é chegado o tempo de compartilhá-los, mesmo que com alguma alteração, com mais gente:

Minha família tem uma pequena propriedade rural nos confins de Araripe, município esquecido situado na divisa do Ceará com o Piauí.

Lá, João Silvestre, meu avô, cultivou arroz, milho, feijão, fava e mandioca. Criou cabras e uma bela ninhada de filhos.
Às vezes tenho a impressão de que Gabriel Garcia Marquez passou por aquelas bandas antes de escrever Cem anos de Solidão. Minha tia Ester bem que podia fazer parte da incrível Macondo. Ela ainda hoje acredita que tomar café e depois se balançar numa rede ofende, faz mal, pode “dar o ramo”.

Dentre muitas coisas e pessoas fantásticas, está a poesia que nasceu ali para denominar os fósseis que pontificam por toda parte: "pedras de peixe encantado". Levou muito tempo pra que eu descobrisse o valor desse encantamento. Os peixes, no entender daquela gente, não se fossilizaram. Antes, se encantaram.

Não por acaso escolhi um fóssil como avatar. Tudo aquilo é puro encantamento.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Aceiro


A palavra “aceiro” é assim definida pelo dicionário: “s.m. Espaço desbastado de vegetação, que se abre em torno das residências rurais ou à margem de um trecho conflagrado por incêndio nas matas, para impedir a propagação do fogo.”  Diz a recomendação dos técnicos que a largura dos aceiros deve ser duas vezes e meia a altura da vegetação. Mas, isso pouco importa.

No sertão as palavras tem sentido maior, transfigurado até. Aceirar vai além de impor margem para conter o fogo. “Funlano tá aceirando a filha de seu sicrano. Se ele descobre!” Aceirar passa, então a ser o que na cidade um dia se chamou flertar, depois paquerar e, hoje, acho, “azarar”.

Valdemar é um primo distante de minha mãe nascido e criado no Sítio Palmeirinha, que fica por trás do Colégio Agrícola. Homem da roça, tem uma família numerosa e trabalhadora. E pura. Um dos rebentos de Valdemar, Antônio, passou temporada no sítio da minha família. Meu pai, já aposentado, resolveu criar duas vaquinhas para ter leite, coalhada e queijos frescos, além de ter o que fazer, é claro. Antônio ajudava. Eram os anos 1990. Eu já havia arribado do Crato.

Antônio era um doce de rapaz. Um dia, vendo tevê com meu irmão, deu-se o seguinte diálogo (era um filme de naufrágio ou coisa que o valha. Certo é que havia uma pessoa num barco no meio de mar, perdida). Meu irmão perguntou: “Antônio, se fosse tu, assim no meio do mar e o barco afundasse... O que tu fazia?”

E Antônio, sem vacilar: “Ôxe... nadava pros aceiros”.

Salve Antônio de Valdemar! Salve a inocência que (ainda) se encontra no sertão!


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Matança de porco

A matança do porco é um dos dias mais especiais da tradição rural alentejana. É um dia de festa, um dia “bem comido e bebido”! Muitas famílias do mundo rural criam o seu porco durante meses, e chegado o inverno procedem ao seu abate.

O texto acima foi retirado da página eletrônica do Museu Municipal de Estremoz, região do Alentejo, Portugal (http://museuestremoz.blogspot.com/2010/01/peca-do-mes-matanca-do-porco_20.html) e me surpreendeu pela semelhança com tudo o que vivi na minha infância.

Galinhas, ovelhas, porcos faziam parte da rotina de menino de sítio. O abate desse animais também. As galinhas eram (e ainda são) as mais comuns. Não há como contar as vezes que segurei no pescoço da penosa para colher o sangue destinado à cabidela, que se chamava “molho pardo” naquele tempo.

Pelo porte do animal e pelo escândalo que patrocinam na hora do abate, foram os porcos que me marcaram mais fortemente. A matança ocorria sempre num domingo, bem cedinho. Era preciso aproveitar a folga do meu pai, que trabalhava até no sábado. Quando acordava, a água já estava borbulhando no fogo de lenha e “os ferros” já estavam amolados. Para tranqulizar o bicho, fazíamos cócegas nos vazios (próximo à barriga).

Em seguida vinha a pancada entre os olhos e a facada na jugular. O sangue jorrava forte e era preciso mexer para não coalhar. Os gritos do bicho iam diminuindo na medida em que a vasilha se tingia de rubro. Estava garantido o chouriço. 

Depois de pelado, era preciso pendurar o bicho de cabeça pra baixo, pelos mocotós. A barriga era então aberta com cuidado para não se danificar o fato. Lavar as vísceras era tarefa de mulher. Nessa hora, eu me encarregava de levar miúdos para a cozinha.

Terminado o serviço, era hora lavar o local para evitar moscas.  Depois, esperar uma linguiça caseira, um guisado, ou um pernil na brasa. 

Da matança alentejana, só não herdamos a tradição do vinho, providencialmente substituído por uma boa cachacinha.

Ah, a palavra “alguidar”, ainda hoje é usada comumente lá em casa, junto com muitos outros termos igualmente herdados do português antigo. Mas essa já outra história.

Eu, bicho do mato

Meu pai costuma dizer que “Silvestre é bicho do mato”. Isso para mexer com a família de minha mãe e, é claro, comigo. Confesso que, mesmo vivendo em grandes centros urbanos há mais de 25 anos, o mato não saiu de dentro de mim. Nem sai. Muito pequeno ainda fomos morar num sítio no sopé da Chapada do Araripe. Hoje, o bairro chique da cidade. Aquele era outro tempo.
A água encanada chegou depois. Éramos abastecidos por um chafariz que ficava próximo. A vegetação da Chapada abraçava a propriedade da família (hoje é um loteamento, com muitas mansões). Às 17 horas a floresta era noite. Não se entrava mais no mato. Perder-se era um risco. O Rio Jacó – um riacho afluente do Salgado, que ajuda o Jaguaribe a ser grande, é o rio da minha aldeia. Ele passa e eu confio.
Raposa, gato do mato, gavião, cobras, tejos, cassacos e uma sem-número de pássaros compunham a fauna. Uma rasga-mortalha tinha ninho na palmeira atrás da casa. Minha mãe tinha medo do agouro e palmeira foi ao chão. A ave foi fazer ninho bem longe. No meio do sítio, um enorme ipê amarelo ainda flora anunciando setembros. Tínhamos também a fortuna de possuir plantas que sempre considerei exóticas: um pé de araçá, outro de fruta-pão, café. Como cheira a flor branquinha do pé de café! E groselha (dessa eu trouxe uma muda para a Sapiranga!). Fruta comia-se do pé, fresquinha e sem veneno, fugindo dos marimbondos.
Tive, por isso, a alegria de uma infância pura, saudável: a merenda da escola era a fruta da época. Sucos de caju, manga, goiaba. Doces, ah os doces. O de groselha – não essa groselha européia, mas a groselha nordestina, da foto acima – sempre foi meu preferido.
Tudo dádiva da Floresta. Floresta Nacional do Araripe, que hoje completa 65 anos de criação. E que resiste, apesar de toda agressão humana.


(A foto no alto é do Cruzeiro no Mirante de Santana do Cariri, lugar incrível. Ao lado, o Soldadinho do Araripe outra dádiva da floresta).


segunda-feira, 2 de maio de 2011

O menino e as macaúbas

Neto de próspero comerciante que ruiu com o ciclo do algodão, sempre tive uma relação muito difícil com essa atividade econômica. Na verdade, meu avô não transferiu nem para os filhos nem para mim, sua habilidade comercial.
Contudo, nos tempos bicudos da minha meninice, meu pai sempre me incentivou a entrar nesse ramo. Morávamos no sítio, e sempre havia excedente de um ou outro produto prontinho pra ser vendido.  Faltava o vendedor.
Não me recordo de quem partiu a idéia (embora ache que tenha sido corda do meu pai) de eu juntar um milheiro de macaúbas pra vendar na feira. Passei a me empenhar diariamente. Era muito ainda pequeno.
Passados alguns dias e com alguns espinhos nas mãos e nos pés (o espinho da macaubeira quebra a ponta dentro da carne. Passa uns 10 dias doendo até que inflama e sai), estava lá o monte de macaúba, reunido numa única saca que tinha quase a minha altura.
Meu pai tirou o banco do passageiro do fusca para levar a mercadoria. Saimos ainda  de madrugada em direção à feira, que ficava na margem esquerda do Canal do Rio Granjeiro (esse mesmo que a chuva arrebentou dias atrás).
Fiquei meio zonzo com o burburinho. Caminhões, carroças, sacos, chapeados ... Uma baiana gorda que usava uma bolsa à tiracolo por cima dos seios enormes e tinha um pano na cabeça era a manda-chuva. Ela era quem comprava e pagava tudo com dinheiro tirado da bolsa. Meus olhos brilhavam de ansiedade.
Tentei abordá-la por duas vezes, mas não recebi atenção (quem desdenha quer comprar, aprenderia depois).  Para conquistar a atenção dela eu apelei: chamei-a pegando na alça da bolsa onde ela levava todo o apurado. “–Cadê as macaúba (sic)?” “– Ali”, respondi apontado o saco. O sol começava a raiar nesse momento.
Ela então deu três passos, apanhou duas macaúbas do saco, bateu uma na outra e disse: “- Tão verde, presta não”(sic). Fiquei paralisado. Sem voz, sem argumento, sem ação.
Quando sai da letargia peguei o saco pelas “orelhas” e, com esforço descomunal, arrastei a mercadoria recusada até a margem do Canal. Sentado na mureta, com as pernas no batente que se forma do lado de dentro, comecei a pensar  no que fazer.
Enquanto destilava meu ódio avistei um rato dentro do canal, entre pedras e lixo. Joguei uma macaúba. Depois mais uma. Outra, mais outra....até que o sol, que já estava alto, fez escorrer a primeira gota de suor da minha fronte.
Nesse momento, peguei saco pelo meio e o inclinei sobre a mureta do canal. Mil macaúbas e a minha primeira experiência comercial estavam no fim.
Ao ver a cena, a mulher gorda ainda exclamou: “O menino jogou as macaúba fora!” (sic) Tive ainda atrevimento pra dizer: “Não eram minhas?”.
Dois quarteirões dali, meu pai aguardava no trabalho. Ao me ver chegar com saco vazio debaixo do braço perguntou, orgulhoso: “Apurou quanto?”. E eu: “Nada, joguei tudo no canal.”
Depois de uma gargalhada sem tamanho, ele me mandou merendar no café da dona Mundinha, que era no mercado ao lado. Morria ali, no nascedouro, um comerciante. Nascia um bruto.