Alguma memória

Aqui vão alguns registros de memória do sertão que há dentro de mim.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nas horas de Deus, amém

Cresci numa família católica. Católica praticante, é preciso frisar. Melhor: família de mulheres católicas autênticas. Os homens eram de uma fé protocolar. Meu pai nos levava à missa aos domingos e ficava no patamar da Catedral da Sé conversando e esperando o tempo passar. Meus avôs - tanto paterno quanto materno - eram homens de poucas rezas.

As mulheres não. Rezavam terços e novenas. Maria Grande nunca tirava o rosário do pescoço. Acompanhavam procissões com as crianças levadas pela mão. Dois tios até foram internos no Seminário São José, mas não prosperaram na vida eclesiástica. Tenho certeza de que se o mais velho deles tivesse mantido a batina, o Brasil teria o primeiro Papa da história. Hoje é advogado. Nunca vi tanta lábia num só cristão. Casou umas seis vezes e ganhou dos irmãos o apelido de Pantaleão.

No tempo de meus avós, no sertão se rezava pedindo proteção contra a seca, a peste e o comunismo. Luis Carlos Prestes e sua coluna eram ameaças reais. Comiam crianças!

Meu pai é um dos poucos homens que conheço que se converteu à fé católica. Sim por que geralmente as pessoas saem da Igreja Católica para as pentecostais para aceitar Jesus. Ele não: aceitou ali mesmo. Deixou a calçada da igreja quando percebeu que a porta estava aberta como os braços do Cristo na cruz.

Isso fez a diferença nas nossas vidas. Passamos a ouvir semanalmente pregações de homem que considero até hoje um poço de sabedoria: monsenhor Antônio Feitosa. De cultura vastíssima, ele próprio se dizia um convertido. Sim, convertido pelo Concílio Vaticano II, que o fez ver a importância do leigo, das coisas simples da vida em comunhão. Nesse tempo, solidificou-se em mim o gosto pela leitura, que começou pelo Antigo Testamento e suas histórias fantásticas.

Fui batizado na Igreja de São Vicente. Primeira Eucaristia foi na escola (foto), com padre que, fiquei sabendo depois, não era assim um celibatário exemplo. Ia à missa na bela Igreja de São Francisco. Depois na Sé. Procissões, jejuns, Finados. E a festa de Nossa Senhora da Penha, a padroeira. Contudo, sempre que me aperreio por algum motivo, peço a minha mãe que reze por mim. Por que, se os santos não a ouvirem, a mim mesmo é que não vão atender.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu vou pro Crato

Faço questão de mandar meus filhos pro Crato todos os anos nas férias. Lá eles têm espaço pra correr, jogar bola, brincar de todas as formas que a infância tem direito. Mas, tem também outras coisas, que certamente nem se dão conta.


Fruta fresquinha no pé. Tem filhós e rolete de cana na Praça da Sé. Tem Socorro, que mantém um tiquim de dona Mundinha (que já se foi) no Mercado com seus caldos deliciosos. Tem feijão verde e tem andu.


Baião-de-dois e galinha caipira à cabidela. Paçoca feita ali mesmo com direito a tum-tum-tum de pilão.Tijolo de buriti. Tapioca quentinha com manteiga-da-terra e queijo coalho de manhã bem cedinho. Fruta madura no pé. Tem saúde e ar puro. Uma rede na varanda convida à preguiça.  


Um céu cheinho de estrelas quando escurece. Tem vovô e tem vovó. E uma tia balzaqueana que é um amor. 


Na foto acima, meu sobrinho David (à frente) e meu filho João Pedro no lombo de uma jumenta (devidamente acompanhados por vovó, vovô e pelo leal "Zé da Missão Velha"). 

Ah! Tem também uma vontade da gota serena de ir também.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Meias brancas


Os resultados do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica (Spaece) são comemorados por uns e rejeitados por outros. Na mão de alguns vira arma política. Há quem se justifique. Mas, o que há por trás dos números? No meu tempo, gente.

Estudei em escola pública nos primeiros anos da minha vida. Grupo Escolar Teodorico Telles de Quental. Depois de rápida passagem pelo Externato 5 de Julho, pertencente à Associação dos Empregados do Comércio, ingressei na escola particular. Com bolsa de estudos.

Nesse tempo, a região na qual a minha família se instalara deixava de ser um sítio isolado para, lentamente, se tornar (hoje) um dos bairros chiques da cidade. Vizinhos eram poucos. Como no dizer do poeta Manoel de Barros, passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas, como encantado. Mas, por obra da Providência Divina, um senhor de posses, pai de bela família formada por três meninos, mudou-se para sítio próximo. O mais velho tinha a minha idade.

Arranjaram uma bolsa de estudos e passei a frequentar colégio particular, junto com esse vizinho. Jogava bola no campo gramado da casa dele. Brincava de, vejam só, “Atari”, joguinho precursor de tudo quanto hoje há por aí. O Colégio era o Madre Ana Couto, pertencente á Diocese do Crato.

Ali conheci grandes professores. Agnelo Damasceno, Assis Brito, dona Aidê, Rogério, Padre Eugênio... Um dia comum de inverno fomos surpreendidos por uma preleção (Agnelo sempre fazia preleções antes de iniciar as aulas de Matemática... Falava de coisas atinentes à vida comum, aos acontecimentos cotidianos. Dava conselhos).

Nesse dia o professor havia encontrado uma estudante fardada zanzando na rua no horário de aula. Perguntou por que ela não estava em sala de aula. Perguntou o que se passava. A menina então explicou que, por ser tempo chuvoso, suas meias brancas não haviam secado e ela fora barrada na escola por estar em desconformidade com o uniforme.

Visivelmente emocionado, o mestre teceu elogios à menina que, em vez de desistir da aula, ia pra casa verificar se suas meias já haviam secado. Dessa forma poderia assistir às aulas após o recreio. E lastimou a decisão da direção da escola de barrar um aluno sem meias.

Por trás dos números Spaece há meias-verdades e meninos e meninas sem meias. Poucos, hoje, voltariam pra escola depois de barrados, como fez a garota do meu tempo.


E, desgraçadamente, há cada vez menos homens como Agnelo Damasceno.   

sábado, 21 de maio de 2011

Última fulô do laço

Seu Chico Balbino me ensinou, há muito tempo, a diferença entre ‘rei’ e ‘reis’. Não se trata de plural de substantivo, advirto. É algo, digamos, mais profundo. Ou mais bonito. Vejamos: quando um matuto vai contar uma história de trancoso, uma fábula, em vez de da expressão “senhor rei”, ele emprega “senhor reis”. Isso mesmo, o monarca é chamado de “reis”, embora seja um só. Balbino explica, com sabedoria: “rei (relho) é de dar em animá”. Perfeito.
 
“Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.”

Livro recentemente lançado pelo governo causa polêmica por aceitar a grafia de palavras em desacordo com a dita norma culta da Língua Portuguesa. Pai de três meninos em idade escolar, admito que não tenho elementos para opinar com segurança sobre o assunto. Mas, gostaria de contribuir para o debate de alguma forma. E, para isso, chamo à cena os meus matutos...

“Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.”

Disse em crônica anterior que o termo “alguidar” era comum entre membros da minha família. Mas não só esse: “ancho” é a cara da minha mãe ao ver alguém chegar satisfeito de uma empreitada. “Eita, fulano vem ali todo ancho”. Na língua portuguesa falada no Brasil, só conheço essa palavra empregada por Chico Buaque de Holanda. Uma única vez.

“Abaixo os puristas. 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis“

Outros termos podem ser elencados. Muitos ficarão na gaveta empoeirada das reminiscências. J. de  Figueiredo Filho me socorre com “botador de sentido”. Embornal é o ‘bornal’ em que o caçador leva munição. Arupemba.... Há muitos. Meu avô não podia ouvir menino batendo boca que gritava de lá: “Não quero saber de prufia (porfia)” . Lindo!

“Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.”

Minha avó, Maria Silvestre – a “Maria Grande“- era mestra em cunhar palavras, mesmo analfabeta. Um dia, ao conhecer uma bisneta nascida no Rio de Janeiro saiu-se com essa: “Como é seu nome?” E a menina: “Paloma”. Vovó: “Palooooooma? Eu não sei dizer esse nome, não. Vou te chamar é de Pelonha”.

“De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar mulheres, etc.”

Outra vez, de férias em casa de mamãe, eu já adulto, a vi procurar por algo na cozinha. Perguntei se podia ajudar. Ela: “Pode. Me mostre onde sua mãe guarda a nanuscada....” Não é preciso dizer que a comunicação não se estabeleceu. Disse que tava faltando ou inventei outra desculpa qualquer. Quando minha mãe chegou da rua soube que “nanuscada” é apenas noz moscada. Ok.

“Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbados 
O lirismo dos clowns de Shakespeare.”

Outros e outros exemplos de palavras (do português arcaico ou dessas adaptadas ao falar matuto) povoam a minha memória, inebriam a minha alma.

“- Não quero saber do lirismo que não é libertação.”     

Os parágrafos entre aspas desse texto são a poesia “Libertinagem”, um libelo modernista de Manuel Bandeira.  Tenho a absoluta convicção de seu Chico Balbino nunca ouviu falar em Manuel Bandeira, em poesia modernista ou em clows de Shakespeare. Mas ele soube, como ninguém, ensinar a diferença entre a realeza e um chicote.

Hoje, lingüistas, políticos, jornalistas e outros especialistas “prufiam” sobre o livro do MEC. Sem paroxismos (licença, viu seu bandeira), prefiro meus velhos. Vou ficar com seu Chico Balbino e com seu Manuel  Bandeira, que me ensinaram uma lição real, poética e definitiva.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

À flor da pele

Vejo seu Espedito na capa de revista e fico orgulhoso. Não é a primeira vez que o vejo reconhecido e que me orgulho disso. Há alguns anos, esteve em São Paulo onde foi homenageado por estilista famoso. Um modelo bonito pra dedéu até desfilou com uma sela nas costas. Achei aquilo estranho, mas sei que em matéria de moda é tudo meio “Azul de Jezebel, no Céu de Calcutá”. Enfim.

Desde menino conheço e admiro o trabalho de seu Espedito e de outros mestres na arte de trabalhar e dar beleza ao couro. Birrão era um negro cego e muito pobre que gravitava em torno da “Casa do Vaqueiro”, no Centro do Crato. Seu Chicô, dono do estabelecimento tinha de um tudo. Dizem que até bainha pra foice.

Matuto sabia aonde encontrar o que precisava: Rua da Laranjeira (hoje Santos Dumont), próximo ao mercado velho, que já não existe mais. Birrão se gabava: “O véi aqui atrás dum couro. Me pediu pra escolher. Perguntei pra que era a peça... ele disse. Fui lá dentro e trouxe. Depois o cego sou eu!”
Na ponta dos dedos, tecia cordas de couro com maestria. E corrigia trabalhos malfeitos de outros artesãos.  Ao correr a peça entre os dedos, parava em determinado ponto: “Tá errado bem aqui”. E estava mesmo. Birrão via o que ninguém mais enxergava nem jamais exergará.

Viva seu Espedito, que com sua voz mansa me aponta, na porta de sua oficina: “Aquela casa bem ali atrás é de uma Silvestre, prima sua”. Fala de tia Rosa, a velha de olhos de anilados como de pavão. Fala de Luís, um primo distante. Do Sítio Grossos, onde nasceu minha avó...

Viva seu Espedito que, reconhecido, ganhou capas de revistas e páginas nos jornais. Contudo, viva ainda mais o genial Birrão, que era cego e morreu sem ser visto pela maioria de nós.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Verônica

Junte uma câmera amadora, um fotógrafo amador e um coração amantíssimo. Para quem acompanha este blog não é preciso dizer o quanto o Cariri me inspira. A natureza, as gentes, as festas, as tradições religiosas, a matutada e as matutices. Enfim, eu mesmo em cada coisa que canto.

Contudo, apartado da minha terra há quase três décadas, era preciso encontrar forças nalgum lugar. Um porto seguro. Claro que o Cariri não saiu de mim e que, a qualquer momento, basta um cheiro, uma imagem, uma luz, uma simples palavra para a gaveta das reminiscências estar novamente aberta. E tudo fresco como a manhã. Apenas envolto na bruma do tempo.

Este porto seguro é a mãe de João (que também aniversaria hoje), de Miguel e de Isaac: Verônica. A pessoa mais importante da minha vida desde que sai do Cariri. Hoje é seu dia! E dia de João também, presente de Deus para as nossas vidas.

Quanto ao resultado da equação proposta na primeira linha desse texto (uma câmera amadora, um fotografo amador e um coração amantíssimo) não podia ser outro: a lua em forma de coração, que só tem no Cariri. Não, não. Na verdade, só tem pra você, meu amor.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Pedagogia do cipó

Tempo para refletir. Era assim que meu pai chamava o intervalo necessário para ir até o mato, quebrar o cipó de mameleiro e trazê-lo de volta. Era missão terrível: escolher o cipó com o qual iria tomar uma sova. O arrependimento tomava conta. Não devia ter feito isso, não devia aquilo... mas, já tinha feito. Sova.

A pedagogia moderna condena o castigo físico. “Relho não é santo, mas obra milagres”, ensinava meu pai. Eu sou prova disso. A surra mais injusta de que tenho notícia foi a que não levei. Claro que ninguém gosta. Mas, foram os corretivos que me ajudaram a me aprumar na vida.

Criaram até a ‘Lei da Palmada’, que proíbe castigo aos pequenos. No tempo de eu menino éramos apenas dois filhos. Depois vieram os outros dois. Minha irmã sempre foi birrenta. Em caso de brigas, apanhávamos abraçados. Era para a gente “aprender a ser unido”. Ela hoje é umas pessoas a quem mais eu quero bem.

Dia desses cheguei a casa para o almoço meio fora de hora. Meu filho caçula estava na mesa da sala de cara emburrada diante dos livros. Tentei estimulá-lo. Até a hora em que ele desferiu forte pancada na mesa, de punhos cerrados.  Na falta do cipó, foram quatro chineladas.

Há duas semanas recebi o boletim do moleque. A menor nota é 9,8. E eu constatei que relho não é santo, mas continua obrando milagres.